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Língua Portuguesa Padrão, Linguística, Teoria & Literatura, resenhas, resumos, dicas de leitura, curiosidades e novidades gerais sobre o mundo de uma língua (quase) brasileira e totalmente abrasileirada.

SOBRE A AUTORA:
Marina (estudante de Letras da UFRRJ, primeiro período), tem um certo vício por resenhas e visa um único objetivo de compartilhar conhecimentos adquiridos ao decorrer do seu curso de Letras e compará-los aos dos outros.

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As Diferenças Entre o Estruturalismo e o Gerativismo e o Estudo das Maiores Características dos Mesmos

Esse é um resumo/resenha dos capítulos sobre Estruturalismo e Gerativismo do Manual de Linguística by Mário Eduardo Martelotta. Para quem se interessa pelo assunto, vale à pena dar uma conferida.

As Diferenças Entre o Estruturalismo e o Gerativismo e o Estudo das Maiores Características dos Mesmos

Por Marina Farias

            Manual de Lingüística (Contexto, 2008, 256 páginas), organizado por Mário Eduardo Martelotta, reúne textos de inúmeros pesquisadores brasileiros de lingüística e tem como objetivo aliar estudos detalhados sobre os vários aspectos da linguagem, tornando-se, portanto, uma leitura necessária e recorrente entre os estudantes de lingüística. Nele se encontram capítulos onde o enfoque é o Estruturalismo (por Marcos Antônio Costa) e o Gerativismo (por Eduardo Kenedy), o estudo das características de ambos e a contribuição dos dois conceitos para as pesquisas relacionadas à linguagem.

            No primeiro texto (Estruturalismo) Costa trata da escola estruturalista e dá ênfase às propostas de Ferdinand de Saussure e de Leonard Bloomfield, afirmando que não se pode falar de um conceito único para o termo estruturalismo. Porém, o autor observa que, de um modo ou de outro, existem concepções e métodos que implicam o reconhecimento de que a língua é uma estrutura, ou sistema (resultante da aproximação e da organização de determinadas unidades), e que é tarefa do lingüista analisar a organização e o funcionamento dos seus elementos constituintes. Apresentando os argumentos de Saussure, o precursor do estruturalismo, Costa esclarece que o estruturalismo, portanto, compreende que a língua, uma vez formada por elementos coesos, inter-relacionados, que funcionam a partir de um conjunto de regras, constitui uma organização, um sistema, uma estrutura e que essa organização dos elementos se estrutura seguindo leis internas, ou seja, estabelecidas dentro do próprio sistema. Contudo, o autor alerta que não somente o conhecimento acerca das regras normativas que encontramos nos livros de gramáticas é nos leva às unidades que compõe o sistema lingüístico. Pelo contrário, o que regula o sistema são normas que internalizamos muito cedo e que começam a se manifestar na fase de aquisição de linguagem. Trata-se de um conhecimento adquirido no social, na relação que mantemos com o grupo de falantes do qual fazemos parte. Em outras palavras, Costa afirma que, segundo Saussure, a abordagem estruturalista entende que a língua é forma (estrutura), e não substância (a matéria a partir da qual se manifesta) e que essa concepção de linguagem tem como conseqüência um outro princípio do estruturalismo: o de que a língua deve ser estudada em si mesma e por si mesma, ou seja, toda preocupação extralingüística precisa ser abandona, uma vez que a estrutura da língua deve ser descrita apenas a partir de suas relações internas.

            Ao fim de sua introdução sobre “Sistema, estrutura, estruturalismo”, Costa inicia inúmeros tópicos sobre o estudo de dicotomias (termo que designa a divisão lógica de um conceito em dois, de modo que se obtenha um par opositivo) frequentemente encontradas quando em relação aos pensamentos de Saussure, onde podemos observar dualidades como:

  • Língua e Fala – a linguagem deve ser tomada como um objeto duplo, pois apresenta um lado social, a língua, e um lado individual, a fala, sendo impossível conceber um sem o outro.
    • Para Saussure a língua é um sistema supra-individual utilizado como meio de comunicação entre os membros de uma comunidade. Sua existência decorre de uma espécie de contrato implícito que é estabelecido entre os membros dessa comunidade. O indivíduo, sozinho, não pode criar nem modificar a língua;
    • Diferentemente, a fala, nas palavras de Saussure, é “um ato individual de vontade e de inteligência”. Em outras palavras, é maneira pessoal de atualizar esse código.
  • Sincronia e Diacronia – A distinção feita por Saussure entre a investigação diacrônica e a investigação sincrônica representa duas rotas que separam a lingüística estática da lingüística evolutiva. “É sincrônico tudo quanto se relacione com o aspecto estático da nossa ciência, diacrônico tudo que diz respeito às evoluções. Do mesmo modo, sincronia e diacronia designarão respectivamente um estado de língua e uma fase de evolução.”
  • O signo lingüístico e arbitrariedade do signo lingüístico – O signo é a unidade constituinte do sistema lingüístico. Ele é formado, por sua vez, de duas partes absolutamente inseparáveis, sendo impossível conceber uma sem a outra, como acontece com as duas faces de uma folha de papel: um significante (a imagem acústica) e um significado (o conceito, sentido). Afirmar que o signo lingüístico é arbritário, como fez Saussure, significa reconhecer que não existe uma relação necessária, natural, entre a sua imagem acústica e o seu sentido, que o signo lingüístico não é motivado, e sim cultural, convencional, já que resulta do acordo implícito realizado entre os membros de uma determinada comunidade. Trata-se, portanto, de uma convenção.

Estas e outras dicotomias muito comuns relacionadas aos pensamentos do lingüista entram em destaque dentre os estudos de Marcos Antônio Costa. O autor esclarece, também, a dualidade entre paradigma e sintagma, forma e substância, significado e significante (de língua e fala), etc.

Costa enfatiza, por fim, a corrente estruturalista norte-americana representada pelas idéias de Leonard Bloomfield, desenvolvidas e sistematizadas sob o rótulo de distribuicionalismo ou lingüística distribucional – postura mecanicista da lingüística que se apóia na psicologia behavorista fortemente difundida nos Estados Unidos a partir de 1920. Os behavoristas defendiam a tese em que a linguagem humana é interpretada como um condicionamento social, uma resposta que o organismo humano produz mediante os estímulos que recebe da interação social. Essa resposta, a partir da repetição constante e mecânica, será convertida em hábitos, que caracterizam o comportamento lingüístico de um falante. Em outras palavras, para um behavorista, a linguagem humana é um fenômeno externo ao individuo, um sistema de hábitos gerado como resposta a estímulos e fixado pela repetição.

No segundo texto (Gerativismo) Eduardo Kenedy introduz o aluno aos principais aspectos que caracterizam a corrente de estudos lingüísticos conhecida como gerativismo. O autor nos apresenta ao maior e mais influente teórico lingüista do conceito gerativista, Noam Chomsky. Em crítica ao conceito behavorista, Chomsky chama a atenção para o fato de um indivíduo humano sempre agir criativamente no uso da linguagem, isto é, a todo o momento, os seres humanos estão construindo frases novas e inéditas, ou seja, jamais ditas antes pelo próprio falante que as produziu ou por qualquer outro indivíduo. Chomsky chega a afirmar, inclusive, que a criatividade é o principal aspecto caracterizador do comportamento lingüístico humano, aquilo que mais fundamentalmente distingue a linguagem humana dos sistemas de comunicação animal. Ao contrário do que dizem lingüistas como Bloomfield, Chomsky discorda da teoria de que a linguagem é um mecanismo somente estimulado pelo convívio social e pelos estímulos de uma comunidade onde vive o indivíduo; o lingüista revitaliza a concepção de racionalidade dos estudos da linguagem e esclarece que a capacidade humana de falar e entender uma língua (pelo menos), isto é, o comportamento lingüístico dos indivíduos, deve ser compreendida como o resultado de um dispositivo inato, uma capacidade genética e, portanto, interna ao organismo humano, a qual deve estar fincada na biologia do cérebro/mente da espécie e é destinada a constituir a competência lingüística de um falante. Em outras palavras, o lingüista defende que a linguagem está, na verdade, introduzida à natureza humana e não a seu contexto social, tornando papel do gerativismo constituir um modelo teórico capaz de descrever e explicar esta natureza e seu funcionamento, o que significa procurar compreender um dos aspectos mais importantes da mente humana – que, por sua vez, passa a ser a morada da linguagem.

Kenedy explica, então, o modelo teórico gerativista entrando em detalhes na metodologia usada para esclarecer a teoria que conceitua a faculdade da linguagem como um dispositivo que permite aos humanos desenvolver uma competência lingüística. O autor nos apresenta a primeira elaboração do modelo gerativista conhecida como gramática transformacional (tendo como objetivo em descrever como os constituintes das sentenças são formados e como estes se transformam em outros por meio de aplicação de regras), a competência lingüística (o conhecimento interno e tácito das regras que governam a formação das frases da língua) e as principais metas de estudos gerativistas, como a competência lingüística dos falantes – que envolve até mesmo estudos psicolingüistas e neurolingüistas.

Diante da excelente elaboração dos textos de Costa e Kenedy, podemos concluir que estruturalismo e gerativismo são pólos opostos no estudo da lingüística. Respectivamente em defesa da linguagem como conseqüência social ou como aspecto natural do ser humano, as teorias divergem e levam até mesmo Chomsky a compará-las, usando uma característica estruturalista para dar ênfase à sua pesquisa gerativista.

A discordância entre os dois conceitos torna ainda mais interessante o estudo da lingüística e estimula o aluno a se aprofundar em suas pesquisas.

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